22.5.08



No centro da volúpia, como essência
e forma, como adorno,
contorno e cerne, é que o voo
se fixa, é que a ave
reside e o canto
mora
e morre.

Albano Martins
Imagem: tarcinrengi

People have the nerve to tell me that they’re lonely
You’re not lonely
I am baby



The Long Blondes, The Couples (Couples, 2008)

Imagem: MultiCurious

21.5.08

conselho muito importante: não comer cerejas em cima do teclado.

20.5.08



Esta dor não passa quando adormeço
chora ao pé de mim
irremediável

alguém nos toca no ombro e
damos por nós mais sozinhos


o meu lugar na morte
é junto à janela
logo atrás de ti

Mário Rui de Oliveira

Imagem: mrs pinkeyes

eu quero!





Suzanne Woolcott, aqui

Your head will collapse, but there's nothing in it.





Emmy the Great, Where is my mind? (Pixies)
Imagem: werqe

embora eu às vezes seja mais uma espécie de princesa Tonta:

Completamente zonza.
Faz coisas sem sentido. O seu reino é feito à sua imagem:

transtornado,
povoado de ingénuos chanfrados e
de lunáticos chalados.
Nada funciona como deveria, tudo está misturado ou invertido.

(...)

Caprichosa (princesa)



É impaciente e muito difícil.


A princesa caprichosa não fala, susurra; não tosse, tossica. Perante um bom prato, não toca em nada, faz cerimónia, e, quando muito, petisca um pouco.
É uma presumida.
Muito mimada, não hesita em pedir o impossível: neve em pleno Verão, sombra no deserto, mirtilos em janeiro.
O seu banho é alvo de todas as atenções e de todos os requintes: temperatura ideal, espuma perfumada, pétalas de rosa, leite de burra e champô de alperce.

Philippe Lechermeier e Rébecca Dautremer in Princesas Esquecidas ou Desconhecidas
Imagem: AnBystrowska


(eu e a minha irmã descobrimos que somos umas princesas um bocadinho chatas)

16.5.08

oh my god, i can't believe it, i've never been this far away from finishing a work!

(ler a cantar)



Vestido de cavalo e fina seda
e coberto de escamas luminosas
é como se tivesse uma outra idade
(a verdadeira) e o jovem corpo
capaz de atravessar muros e medo.
Inclinarias sobre a minha boca
um nome arrevezado com sabor
a terras estrangeiras visitadas
secretamente, em noite toda escura,
envolto, nu, em glória impermeável.
Vais-me dobrar em dois como se dobra
um dia que passou sem nada dentro,
o velho ardor de nuvens encardidas;
sem ver na minha voz como cantava
ao telefone a sombra da memória
do desejo que dói como um veneno.

António Franco Alexandre

Imagem: rooze

15.5.08

So give me coffee


Ou chove, ou sonho.

So cry, cry like a baby into an ocean of wishes




Ryan Adams, Starlite dinner

O tempo passa e eu arrasto o corpo descuidadamente pelos dias.
E entretanto, os dias arrastam-se descaradamente à minha frente.


Imagem: lightships

14.5.08



(...)

E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho,
e o seu bater
é já a sua queda para fora do tempo.


Ingborg Bachmann
Imagem: foret



Yaël Naïm, Toxic


(obrigada menino Afonso*)

agora o Gmail mete-se na minha vida e explica-me porque acabo sempre com deadlines, com esta funny quote of the day:

I love deadlines. I like the whooshing sound they make as they fly by.

Douglas Adams




afinal gosta-se delas.
posso matar o Gmail?

13.5.08

então, menina lebre, em 6 palavrinhas aqui vou eu:



catrapum roxo café preguiça cidade rabugice

agora é a vez delas:

ana
menina limão
menina a.g.
andreia
vanessa


e estas as são as regras:

"São-nos pedidas seis palavras para uma “muito curta” biografia (há quem opte por um conceito) e podemos dar-lhes ênfase com uma imagem. Devemos colocar um link para quem nos desafiou e por nossa vez desafiar cinco blogs, avisando-os deste mesmo convite."

Cabeça em ambulância



Há feridas cíclicas há violentos voos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã

ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos

ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta

quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaçoso
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura
na sala escura, de infância.

Luiza Neto Jorge
Imagem: shiek0r

10.5.08

volto a repetir (a duas meninas) se este menino me cantar esta música assim:



eu já não sei o que vai ser de mim*



No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.

Tu não vês o jogo perdendo-se
como as palavras de uma canção.

Passas longe, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão...

— Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?

Cecília Meireles

Imagem: riotbubbles

a menina já nem pode contar uma piada



a piada aqui.

9.5.08

It's gonna take an airplane
To get me off the ground

I don't blame anyone who isn't sticking around...


Destroyer, It's gonna take an airplane


quem, com 25 anos de juízo, se lembra de calçar umas meias em modo e ir derrapar para o corredor...

aquele soalho estava mesmo a pedi-las.

7.5.08



Sozinha estou entre paredes brancas
Pela janela azul entrou a noite
Com seu rosto altíssimo de estrelas.

Sophia de Mello Breyner Andresen
Imagem: Belleeee

6.5.08





My home has no door
My home has no roof
My home has no windows
It ain't water proof
My home has no handles
My home has no keys
If you're here to rob me
There's nothing to steal
A la maison
Dans ma maison
C’est là que j’ai peur

Home is not a harbour
Home home home
Is where it hurts

My home has no heart
My home has no veins
If you try to break in
It bleeds with no stains
My brain has no corridors
My walls have no skin
You can lose your life here
Cause there's no one in
Home is not a harbour
House not a hearse
Home is not a harvest
Home is where it hurts

Né dans l'œuf
Oui c'est au fond de l'œuf que l'on se tue
T'a posé tes clés
Là où t'es t'es bouclé
T'as posé tes pieds
Là où c'est hanté
My home is no one


Camille, Home is where it hurts (Music Hole)

Grapefruit Moon



Não é fácil resistir a tudo
o que nos roubam.
Tempo, memória, mundo.
Toleramos o insuportável
com insuportáveis venenos.
Até melhor ordem, se houver.

Noutras casas (lembro-me)
éramos mais, bebíamos
apressadamente a juventude.
Mas a vida — chamemos-lhe
assim — separa os que se juntam,
gosta de abismos fáceis.

Manuel de Freitas

Imagem: ZephaniaOZ

5.5.08

hoje o super gualter veio sob a forma de allison goldfrapp



este seventh tree está uma coisa mais linda. parece que a menina allison agarrou a black cherry e tirou de lá de dentro estas delícias todas.


(e o dia estava a combinar com o álbum. estava tudo assim, com um ar amarelinho.)

the world has gone black

black lips black keys black kids black halos black mountain

(eu ainda prefiro black rebel motorcycle club e black box recorder. eu não acredito que esta música tem oito anos. oh god.)



não me entregues,
tristíssima meia-noite,
ao impuro meio-dia branco

Alejandra Pizarnik
Imagem: Delilah Woolf

3.5.08

Homem, és um génio



A questão é saber se é possível ser-se, simultaneamente, genial e falhado. Eu creio que o falhanço implica talento. Conseguir é falhar.

François Truffaut, Cahiers du cinéma


(pedacinho fora do contexto [como uma tóxica precisa disto, tal como precisa disto] retirado da colecção Grandes Realizadores do Público)

polvo goes pop pop pop pop super pop


Mystery Jets, Young love


(e agora umas pipocas, hum)

30.4.08



Coloca uma palavra
no vale da minha mudez
e planta florestas de ambos os lados,
para que a minha boca
fique toda à sombra.

Ingeborg Bachmann
Imagem: dargeg

29.4.08

só agora reparei nas semelhanças

andy williams, music to watch the girls go by



mexican institute of sound, mirando las muchachas



líquenes I

Algures,
no lugar
mais frio
da memória,

mas
nítido
como um centímetro
quadrado de neve
que pede
a própria luz
à algidez interior,
surge
a paisagem
de líquenes,

líquenes II

o lento trabalho
da metamorfose
entre a alga
e a campânula
venenosa
do míscaro
[protosponja
que se embebe
nas grutas,
na sombra ácida],
o sono
criptogâmico
incapaz de sonhar
a forma duma flor

líquenes III

mesmo
sobre a nitidez
vitrificada tão
intensamente
pela memória
que parece provir
da infra-infância
o súbito
centímetro quadrado
de neve e luz
onde os líquenes surgem
agora
monomicro-
criptomaníacos,

líquenes IV

meticulosos
na humidade
que fabricam
di
luin
do-se nela,
e ela
por sua vez
segrega-os
devagar
em cada
exalação
[sempre mais
do que eram]

líquenes V

tão semelhante
na escala
deste livro
a respiração
minuciosa
do lodo
produzindo
não flores
mais lodo,
sono também
sem sonho

alastrando
na transparência
da água:

líquenes VI

assim
se cumpre
o eclipse
gradual
sobre o centímetro
quadrado que
os líquenes
cobrem
na memória,
assim
a luz e a neve
se ocultam
pouco a pouco, assim
se esquece.


Carlos de Oliveira
Imagem: *cryptorchid

28.4.08



pepi ginsberg
é só ir até aqui






depois é só ir a music e ouvir o álbum todinho. não há que enganar.
o sol não veio, mas veio a pepi (e tem nome bonito. ginsberg.)



Dentro da curva inesperada
dos meus braços,
transbordam os gestos
numa espiral imperceptível.

Nas pontas dos meus dedos
se alonga a neblina
que deriva do inverso da loucura
quando prendo nos dentes
a superstição da lua
ou esboço no riso
a cumplicidade dos espelhos
timidamente transparentes
para dizer que só pelo silêncio
se vence o labirinto das palavras
e se mede a solidão.

Graça Pires

Imagem: pindur

27.4.08

humpft



eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol. eu ainda não acredito que amanhã não vem sol.

(e no entanto, os grilos lá fora cantam. a minha mãe diz que é sinal de calor.)



Imagem: Laura Vancane

Imagine all the girls,
Ah ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah.
And the boys,
Ah ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah.
And the strings,
Eee, eee, eee, eee, eee, eee, eee, eee.
And the drums, the drums, the drums, the drums...




The Ting Tings, Great DJ

Imagem: sunnyou

brainy day


23.4.08

bom dia*





This is why I always wonder
I'm a pond full of regrets
I always try to not remember rather than forget

This is why I always whisper
When vagabonds are passing by
I tend to keep myself away from their goodbyes

Tide will rise and fall along the bay
and I'm not going anywhere
I'm not going anywhere
People come and go and walk away
but I'm not going anywhere
I'm not going anywhere

This is why I always whisper
I'm a river with a spell
I like to hear but not to listen,
I like to say but not to tell


This is why I always wonder
There's nothing new under the sun
I won't go anywhere so give my love to everyone

Tide will rise and fall along the bay
and I'm not going anywhere
I'm not going anywhere
People come and go and walk away
but I'm not going anywhere
I'm not going anywhere

Keren Ann, Not going anywhere

Imagem: laura vancane

o que fizeram à menina linda?



(acho que se pode ajudar, mas eu digo, sempre preferia dar umas lambadas a quem fez isso. aqui fica o meu protesto. humpft.)

Imagem: waif girl

22.4.08

ó ana, se andassemos por aí a assaltar bancos seríamos mais ou menos (mais para o mais) assim:
(constatei ontem)



Woody Allen, Take the money and run (1969)

Bank Teller: Does this look like "gub" or "gun"?
Bank Teller: Gun. See? But what does "abt" mean?
Virgil: It's "act". A-C-T. Act natural. Please put fifty thousand dollars into this bag and act natural.
Bank Teller: Oh, I see. This is a holdup?

(e por falar em migalhas)

here she comes



walking down the street







i walk in a room, you know i look so proud *
(se repararem bem, ela pôs-me a lingua de fora, já não há respeito)




* Patti Smith, Gloria

isto é um vício novo dia sim dia sim.
esta mulher deixa-me o coração em migalhinhas.







Emily Barker, On a train (Photos. Fires. Fables. 2008)


ver e ouvir mais aqui e aqui.




Algo se me assemelha
e me quer para si

me desembainha
quando menos espero

Distorção do espírito
para a morte

como o corpo num salto
irremediavelmente
lento
e
alto

Luiza Neto Jorge
Imagem: VeraAda

18.4.08

Up in the air
Up there, up there, in the air




I hadn't yet discovered that I lived in a sort of transparent balloon, drifting over the world without making much contact with it, and that the people I knew appeared to me at a different angle from the one at which they appeared to themselves, and that the reverse was also true. I was smaller to others, up there in my balloon, than I was to myself. I was also blurrier.

Margaret Atwood, Moral Disorder
Imagem: sexties

15.4.08

espero que o céu fique bem cinzento hoje*





Scarecrows dressed in the latest styles
With frozen faces to keep love away

Imagem: smokedval

if i kiss you will you feel better?

a verdadeira banana queen



qual deadline? hum.
hey, my life is okay!...

imagem: karolkie

14.4.08

pretexto



Porque não cai a noite, de uma vez?
- Custa viver assim aos encontrões!
Já sei de cor os passos que me cercam,
o silêncio que pede pelas ruas,
e o desenho de todos os portões.

Por que não cai a noite, de uma vez?
- Irritam-me estas horas penduradas
como frutos maduros que não tombam.

(E dentro em mim, ninguém vem desfazer
o novelo das tardes enroladas.)

Maria Alberta Menéres

Imagem: Karolkie

13.4.08



Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo

Imagem: sexties

12.4.08

Give yourself up, make yourself sing, don't tell us that you can't. We need a sampling.

The Bird And The Bee, La la la

help me regain my heart



Yuka Yamaguchi (aqui)

i'm addicted



the bird and the bee, the bird and the bee, 2007

aqui e aqui

(como é que só descobri esta coisa linda agora?)