10.10.09

Please teach me gently, how to breathe.

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Shelter, XX (XX, 2009)


(...) vai saber que nesses lugares vivem seres esquisitos: os tais sonhadores. Sabe? O sonhador, para o definir pormenorizadamente, não é um homem, é uma espécie de criatura do género neutro. Aloja-se na maior parte do tempo num inacessível refúgio, como se pretendesse até ocultar-se da luz do dia, e, uma vez encolhido na sua toca, metido na sua casota como um caracol, ou pelo menos parece-se muito, neste aspecto, com esse curioso bichinho que é simultâneamente um animal e uma casa e que se chama tartaruga. Na sua opinião, por que razão gostará ele tanto das suas quatro paredes, monótonamente pintadas de verde, sujas, tristes e enegrecidas pelo fumo do tabaco? Por que razão esse ridículo sujeito, quando algum dos seus raros conhecimentos o vem visitar (e ele procede de tal modo que, a pouco e pouco, os seus amigos acabam todos por desaparecer), por que razão esse homem acolhe o visitante com tal embaraço, com um rosto de tal modo perturbado e tão confuso como se acabasse de cometer um crime, ali, entre as suas quatro paredes, como se fosse apanhado a fabricar notas falsas (...) Por que razão, diga-me, Nastenka, a conversa se estabelece com tanta dificuldade entre estes dois interlocutores? Por que motivo não se soltam gargalhadas e não se troca qualquer palavra espirituosa com este amigo surgido de improviso, o qual em qualquer outra circunstância tanto gosta das gargalhadas e das palavras espirituosas, dos discursos sobre o belo sexo e sobre outros assuntos agradáveis? Por que razão, em suma, este amigo, por certo um conhecimento de fresca data, logo à primeira visita - porque, em casos destes, não haverá uma segunda visita -, por que razão o próprio visitante se sente tão perturbado e frio, com o seu espírito (isto se alguma vez o teve) embotado, ao ver o rosto transtornado do seu anfitrião, o qual, por seu turno, está agora destituído do seu derradeiro grão de sensatez, após ter feito esforços gigantescos, mas vãos, para remover as dificuldades da conversa e para a tornar agradável (...) Por que razão, ainda, o visitante agarra de repente no chapéu e se retira rapidamente, lembrando-se de súbito de um assunto absolutamente inadiável, que nunca existiu, e liberta de qualquer maneira a mão do caloroso aperto do anfitrião, empenhado agora em manifestar o seu pesar e a ganhar o tempo perdido?

Noites Brancas, Fiódor Dostoiévski
Fotograma: Two Lovers, James Gray (2008)

8 comentários:

Vanessa disse...

omg! que grande mistura tu aqui puseste! <3

:)

menina tóxica disse...

eu sei. não resisti vanessa ^^

*

Aida disse...

é por isto, e muito mais, que gosto de Dostoiévski (e em particular das noites brancas) :)
bjs**

menina tóxica disse...

e o noites brancas que tenho para te entregar está uma vergonha. acho que vou ter de te oferecer um novo. polva coradinha.

*

Aida disse...

vais nada,
isso é um processo natural que acontece aos livros quando eles têm um bom uso.

:)**

menina tóxica disse...

quando o vires vais matar-me ^^*

Lt disse...

Post perfeito!

O filme deixou-me algumas dúvidas quanto à sua qualidade, mas quanto mais me afasto dele, mais o admiro; mais se cravam em mim os momentos intensos que o compõem.

menina tóxica disse...

Lt, obrigada.
eu gostei muito do filme :)